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sábado, 6 de abril de 2013

Minhas impressões de "Análise da Inteligência de Cristo" - Augusto Cury


Acabei de ler o primeiro livro da “Análise da Inteligência de Cristo” de Augusto Cury e gostei. Discordo em alguns trechos da forma como ele encara Jesus, mas achei produtivo no sentido de que traz argumentos bons pra respaldar a real existência de Jesus (não como filho de Deus, mas como personagem histórico).
Acho que todo agnóstico já se perguntou sobre a real existência de Jesus ou  se tudo não passa de um personagem de ficção. Augusto Cury aponta características da personalidade de Jesus que não poderiam ser criadas em um personagem fictício, pela pobreza intelectual dos escritores da época. Isso é um bom argumento.
Ele começa o livro dizendo:
“Investigar com critério aquilo que se vê e ouve é respeitar a si mesmo e a sua própria inteligência. Se alguém não respeita a sua própria inteligência não pode respeitar aquilo em que acredita. Não deveríamos aceitar nada sem antes realizar uma análise crítica dos fenômenos que observamos.”
Certíssimo! Não é porque se estabeleceu que algo é a verdade absoluta que isso não deva ser analisado intelectualmente.
Diz ainda: “A maioria dos ateus fundamentou seu ateísmo não em um corpo de idéias profundo sobre a existência ou não de Deus. Seu ateísmo era resultado da indignação contra as injustiças, incoerências e discriminações sociopolíticas cometidas pela religiosidade reinante em determinada época... A maioria dos ateus possuía e possui um ateísmo social, um “sócio-ateísmo”, alicerçado na anti-religiosidade, e não numa produção de conhecimento inteligente, descontaminada de distorções intelectuais, de paixões ateístas e tendencialismos psicossociais sobre a existência ou não de Deus.
Concordo. A maioria dos ateus se convenceu da inexistência de Deus em razão das atrocidades religiosas passadas e presentes. Mas, algo importante a se destacar é que ser contra religião não significa ser ateu!
Um argumento bom do livro:
“Se Cristo fosse fruto da imaginação dos seus biógrafos, eles não apenas teriam riscado os dramáticos momentos de hesitação que tiveram, mas também teriam riscado dos seus escritos a dramática angústia  que o próprio Cristo passou na noite em que foi traído, no Getsêmani. A descrição da dor de Cristo é uma evidência de que ele não era uma criação literária. Não viveu um teatro; o que ele viveu foi relatado.
Eles também não teriam silenciado a Cristo quando ele estava diante do julgamento dos principais sacerdotes e políticos. Pelo contrário, teriam colocado respostas brilhantes em sua boca. Cristo falou palavras sábias e eloqüentes que deixavam até as pessoas mais rígidas pasmadas. Porém, quando Pilatos, intrigado, o interrogava, ele se calou. No momento em que Cristo mais precisava de argumentos, ele preferiu se calar. Com a sua inteligência, poderia se safar do julgamento.
A criatividade intelectual não consegue criar uma personalidade que possui uma inteligência requintada e, ao mesmo tempo, tão despojada e humilde.” (pelo menos não a daquele tempo)

Outro argumento bom sobre a real existência de Jesus:
“Durante alguns anos eu pensava que as pequenas diferenças existentes nas passagens comuns dos quatro evangelhos diminuíam a credibilidade deles. Com o decorrer da minha análise, compreendi que essas diferenças também eram importantes para atestar a existência de Cristo. Compreendi que as suas biografias não procuravam ser cópias umas das outras. Eram resultado da investigação de diferentes autores em diferentes épocas sobre alguém que possuía uma história real.
Os evangelhos são quatro biografias “incompletas” produzidas, em tempos diferentes, por pessoas que foram cativadas pela história de Cristo.”


“É difícil encontrar alguém capaz de nos surpreender com as características de sua personalidade, capaz de nos convidar a nos interiorizar e repensar nossa história. Alguém que diante dos seus focos de tensão, contrariedades e dores emocionais tenha atitudes sofisticadas e seja capaz de produzir pensamentos e emoções que fujam do padrão trivial. Alguém tão interessante que seja capaz de perturbar nossos conceitos e paradigmas existenciais.”(mais difícil ainda reproduzir um personagem assim, especialmente naquele época)

Então, após argumentar sobre a real existência de Jesus na historia, ele passa a apontar seus ensinamentos para, talvez (isso não fica claro), comprovar a sua existência divina. Aqui eu discordo dos propósitos, mas concordo com os ensinamentos.

Uma das lições de Jesus era contra a ansiedade:
“Governamos o mundo exterior, mas temos enorme dificuldade para gerenciar nosso mundo interno, o dos pensamentos e das emoções. Somos subjugados por necessidades que nunca foram prioritárias, subjugados pelas paranóias do mundo moderno: do consumismo, da estética, da segurança. Assim, a vida humana, que deveria ser um espetáculo de prazer, torna-se um espetáculo de terror, de medo, de ansiedade...Ao longo de quase duas décadas pesquisando o funcionamento da mente humana, compreendi que não há ser humano que não tenha problemas no gerenciamento dos seus pensamentos e emoções, principalmente diante dos focos de tensão... O maior desafio da educação não é conduzir o homem a executar tarefas e dominar o mundo que o cerca, mas conduzi-lo a liderar seus próprios pensamentos, seu mundo intelectual.
Cristo tanto prevenia a ansiedade como discursava sobre o prazer de viver. Dizia: “ Olhai os lírios dos campos”

O que mais me chama a atenção no livro é o conhecimento do autor (psiquiatra) sobre o pensamento humano. Ele diz que as pessoas se recordam mais dos fatos com cunho emocional do que de palavras. E Jesus tinha noção disso, pois procurou falar menos e fazer mais. (especialmente considerando que ninguém escrevia sua história enquanto ela acontecia, mas algum tempo depois, através de testemunhos e lembranças)
“O passado não é lembrado, mas reconstruído. As recordações são sempre reconstruções do passado, nunca plenamente fiéis, apresentando às vezes micro ou macrodiferenças. A memória não é um sistema de arquivo lógico, uma enciclopédia de informações, nem a inteligência humana funciona como uma retransmissora dessas informações. A memória funciona como um canteiro de dados para que o homem se torne um construtor de pensamentos. Cristo tinha consciência disso, pois usava a memória como trampolim para expandir a arte de pensar. Estava sempre estimulando os seus discípulos a se interiorizar e a se repensar. Registramos de maneira mais privilegiada as experiências que tiverem mais conteúdo emocional, seja ele prazeroso ou angustiante, por isso temos mais facilidade de recordar as experiências mais marcantes de nossas vidas, tanto as que nos causaram alegrias como aquelas que nos frustraram.”

O autor enfatiza outra lição de Jesus, contra o preconceito:
“Quem conhece minimamente a grandeza e a sofisticação do funcionamento da mente humana vacina-se contra a ditadura do preconceito. As biografias de Cristo evidenciam que ele era uma pessoa aberta e inclusiva. Não classificava as pessoas. Ninguém era indigno de se relacionar com ele, por pior que fosse seu passado...A mulher samaritana ficou extasiada com a gentileza e a proposta inusitada de Cristo. Isso era demais para uma pessoa tão discriminada socialmente. Talvez nunca alguém lhe tenha dado tanta atenção e se preocupado se ela era uma pessoa feliz ou não. Todos a julgavam pelo seu comportamento, mas ninguém provavelmente havia investigado o que se passava no seu íntimo. Por isso, de repente, ela largou o seu cantil de água, esqueceu-se de sua sede física, saiu da presença de Cristo e correu para a sua aldeia animada e alegre. Parecia que a solidão, a angústia e o isolamento que a encarceravam e geravam uma intensa sede psíquica foram rompidos. Ela contou a todos da sua pequena cidade o diálogo incomum que teve com Cristo.”
É lindo ver que Jesus considerava o ser humano, independente de preconceitos e naquele tempo isso foi mesmo um divisor de águas, pois a sociedade era altamente impregnada de preconceitos. Acontece que a lição de Jesus não sobrevive ao resto da bíblia... mesmo no novo testamento, quando as pessoas já tiveram acesso aos ensinamentos de Jesus, o preconceito contra homossexuais, por exemplo, continua vivo. E nas passagens da bíblia em que se lê sobre relações entre dois homens (naquela época ainda não existia o termo “homossexual”, portanto, se sua bíblia diz isso, é só mais uma tradução errada), nessas passagens, vê-se que não se tratam de dizeres de Jesus, mas de pessoas que se dedicaram a escrever sobre o que acham que foram seus ensinamentos... Daí o problema de se considerar a bíblia como uma unidade sagrada de pensamentos divinos.

Acho interessante notar que, as supostas FALAS de Jesus, reproduzidas em algumas partes da bíblia, não eram tão humildes quanto suas atitudes... quem de fato lê a bíblia percebe quão incompatíveis são algumas falas a Jesus atribuídas, com o seu comportamento relatado... exemplo: quando ele está numa festa de bodas com alguns discípulos e sua mãe,  ela avisa que o vinho acabou e ele responde rispidamente “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora”... (João 2:4) então ela provavelmente humilhada pela resposta, diz “façam o que ele manda”... e também no episódio da conversa com a samaritana que foi tão emblemático porque representou uma quebra de preconceito COM O GESTO, enfiam uma FALA tipicamente preconceituosa na boca de Jesus “a salvação vem dos judeus”(João 4:22)... obviamente se Jesus tentava quebrar preconceitos com aquela atitude, não incluiria a sua regionalidade na fala, mas diria algo como “a salvação vem de Deus...” algo universal e não regional, afinal, suas atitudes mostravam justamente a intenção de eliminar rótulos como “judeu, samaritano”, etc  e foi exatamente o que colocaram na boca dele com essa fala, um rótulo obviamente proveniente de quem escreveu o texto e não do Jesus, cujo comportamento visava eliminar tais conceitos. (aqui o maior argumento para não acreditar na bíblia cegamente, mas praticar somente o que Jesus em sua sabedoria tentou ensinar – raciocinem irmãos!!!)
O triste é ver que a mesma rigidez intelectual que Jesus tentou combater naquela época, hoje se estabelece exatamente em cima da sua história. O que foi dito sobre ele e “por ele” é tido como regra absoluta, mesmo nas partes mais obviamente incondizentes com o personagem de Jesus e, portanto, provenientes da parte ficta (ou “recordada”, “memorizada” e, ainda, “distorcida” por quem escreveu a bíblia).
O autor sabiamente diz que “Em suas biografias há indícios claros que expressam que ele conhecia a facilidade com que distorcemos a interpretação. Por isso afirmava que a fidelidade do testemunho de alguém tinha que ser confirmada por duas pessoas”.  Provavelmente por isso, Jesus AGIU tanto, no lugar de falar...

O autor se pergunta: Se Cristo tivesse vivido nos dias de hoje, causaria turbulência social, chocaria a política e a ciência?
O autor imagina uma situação em que Jesus está em um congresso de psiquiatria e faz como fez numa reunião descrita na bíblia, levanta e diz “quem acredita em mim, viverá um prazer inesgotável”... acredito que a colocação de Jesus seria diferente nos dias de hoje, mas a interpretação é a mesma... ele de fato falava sobre problemas psíquicos como ansiedade e tentava amenizar o sofrimento das pessoas com conselhos do tipo “não se preocupe com o dia de amanhã” e dizer que quem acreditasse nele, seria feliz, é meramente dizer que, quem entendesse o que ele dizia, quem conseguisse se concentrar no agora e deixar o amanhã de lado, se livraria da ansiedade. Hoje temos muitas pessoas que falam sobre isso, (vide “O Poder do Agora” de Eckart Tolle), então provavelmente Jesus não precisaria bradar numa convenção de psiquiatria, bastaria escrever um livro de auto-ajuda... talvez fosse até melhor compreendido porque não correria o risco de colocarem palavras na sua boca como evidentemente foi feito na bíblia. Mas, concordo que seus conselhos continuam úteis até os dias de hoje!

Sobre a eternidade que Jesus pregava, o autor diz que “...o pensamento de Cristo referente ao fim da existência tinha uma ousadia e complexidade impressionante. Ele discursava sobre a imortalidade com uma segurança incrível. A maioria dos seres humanos nunca procurou compreender algumas implicações psicológicas e filosóficas da morte, mas sempre resistiu intensamente a ela.”
O autor insiste em dizer que Jesus chocaria até a medicina nos dias de hoje com seu discurso sobre a vida eterna... ou seja, sobre a existência de vida após a morte do corpo físico. Acontece que hoje, graças à ciência, temos muito mais conhecimento sobre isso. Há estudos sérios sobre a existência de vida após a morte, realizados por cientistas de verdade, inclusive com algumas teorias muito boas sobre como se daria a continuação da existência sem o corpo físico. Então, concordo que Jesus falava de algo grandioso para sua época (embora a ideia de vida após a morte seja muito anterior a ele), mas hoje em dia, felizmente, somos uma sociedade que pode ao menos arranhar esse conhecimento de forma científica e menos chocante. O que não retira a característica de ser Jesus um homem à frente de seu tempo.
Acho que o maior feito de Jesus foi quebrar os parâmetros de pensamentos pré estabelecidos na época. Falou sobre o amor, sobre a humildade, que estavam esquecidos na sociedade... Mas, a questão da vida após a morte não foi seu maior assunto. Porque religiões foram criadas em torno dele e porque esse assunto assola todo ser humano, talvez a questão da eternidade seja tão associada a Jesus... mas, desde muito antes dele as pessoas acreditavam na vida após a morte (egípcios eram mumificados em função disso), sem que ninguém conseguisse explicar como isso ocorria fisicamente (no sentido de ciência da física), como Jesus também não explicou... mas acreditou, assim como muitos antes dele. Assim, não acho que falar sobre a vida após a morte seja algo especial em relação a Jesus... Os faraós já previam de forma análoga as tais “ruas de ouro” para onde levariam seus pertences (só não tiveram a sensibilidade de Jesus de imaginar que na vida após a morte, os bens materiais seriam desnecessários)
O que eu quero dizer é que, diferente do que muitas religiões pregam, não foi Jesus que introduziu a questão da vida eterna na história do homem.

Cury ainda fala algo extremamente sábio (eu mesma já cheguei a acreditar que poderia haver uma sociedade sem religião, MAS, isso é intrinsecamente impossível ao ser humano)

“Um dos maiores erros intelectuais de Carl Marx é ter procurado criar uma sociedade pregando o ateísmo como massificação cultural. Marx encarou a religiosidade como um problema para o socialismo. Ele era um pensador inteligente, mas por conhecer pouco os bastidores da mente humana, foi ingênuo. Talvez nunca tenha refletido com mais profundidade sobre as conseqüências psicológicas e filosóficas do caos da morte. Se o tivesse feito, teria compreendido que o desejo de superação da finitude existencial é irrefreável. O desejo de continuar a sorrir, a pensar, a amar, a sonhar, a projetar, a criar, a ter uma identidade, a ter consciência de si e do mundo está além dos limites da ciência e de qualquer ideologia sociopolítica.
O homem possui uma necessidade intrínseca de procurar por Deus, de criar religiões e de produzir sistemas filosóficos metafísicos.
O desejo de transcender o fim da existência não pode ser contido. A melhor maneira de propagar uma religião é tentar destruí-la. A melhor maneira de incendiar o desejo do homem de procurar por Deus e transcender o caos da morte é tentar destruir esse desejo.”
Infelizmente, as pessoas confundem “acreditar na vida após a morte” com “ser religioso” ou “acreditar na bíblia”. Ninguém precisa ser religioso ou acreditar na bíblia para ser imortal, caso isso seja uma consequência inevitável após a morte do corpo físico.


O autor fala que “Ele não disse que se as pessoas obedecessem a regras de comportamentos ou doutrinas religiosas teriam a vida eterna. Não! Os textos são claros, ele concentrou nele mesmo o segredo da eternidade. Disse que se alguém cresse nele e o incorporasse interiormente, essa pessoa teria a vida eterna, a vida inesgotável e infinita. Quem produziu um discurso como esse na história?”
De fato, um discurso difícil de se criar em um personagem fictício para os autores da época. O que reforça o argumento de que Jesus realmente existiu.
 MAS, é importante diferenciar o que muitas interpretações religiosas fizeram com esse discurso ao longo dos anos. Acho que quando Jesus disse “crer em mim”, queria dizer “acreditar no que eu digo” e isso é simples, acreditar que é recompensador ser humilde, amoroso, evitar a ansiedade, etc e isso faz com que a pessoa tenha vida plena (eterna, inesgotável, infinita)... e não acreditar nele como sendo o filho de Deus, senão ficará fora da “eternidade”. Ele simplesmente queria que as pessoas entendessem que o que ele pregava faria bem para suas vidas. Jesus, talvez, foi mais ousado do que outros grandes pensadores de épocas diferentes, quando disse que ELE era a fonte da alegria,  ao invés de explicar que SUAS PALAVRAS eram a fonte da sabedoria... pois, todos os outros pensadores dão seus conselhos, mas não os interligam à sua própria figura e foi isso que Jesus fez. Talvez porque na época isso fosse necessário para que as pessoas compreendessem o que ele dizia. (ou então, devido a certa prepotência implícita, mas esse aspecto psicológico eu deixo de lado porque prefiro acreditar que suas ações não condizem com esse traço. Embora fique evidente na bíblia que Jesus tinha seus rompantes nada honoráveis, como quando se descontrolou com o comércio realizado na igreja que ele considerava imoral)

Infelizmente, o que aconteceu na história em relação a Jesus é que ele se tornou um ídolo e, como dizia Carl Sagan, nenhum homem deve idolatrar outro, porque isso limita nosso raciocínio.
O autor fala que Jesus foi especial (divino?) porque geralmente, o homem precisa primeiro ter condições de sobrevivência para depois desenvolver a inteligência, mas “Cristo brilhou na sua inteligência, embora desde a infância tivesse sido castigado pela miséria. Além disso, o que é mais interessante, ele conduziu as pessoas da sua época, tão castigadas pela miséria física e psicológica, a ter uma fome do saber que transcendia as necessidades básicas de sobrevivência.”
Na verdade eu acho que as pessoas mais simples tendem a se voltar mais para o interior que as pessoas com necessidades materiais mais supridas. Pela minha humilde experiência social, tenho percebido que, embora mais crédulas e, portanto manipuláveis, as pessoas mais simples (financeiramente falando) são aquelas que mais se preocupam com a espiritualidade e a interiorização. Provavelmente foi o que aconteceu com Jesus.
O que dá para perceber no autor é que ele não escreveu o livro como um ateu que diz ter sido, mas como uma pessoa tendente a acreditar na divinização de Jesus. Ele não analisou a história de Jesus como um ser humano complexo, mas como o apregoado “filho de Deus”.  Isso prejudica sua exposição de pensamento, como nesse trecho:  “Se olharmos para a miséria do povo Israel e para o jugo imposto pelo Império Romano, constataremos que Cristo não veio na melhor época para expor seu complexo e audacioso projeto para transformar o ser humano. Se tivesse vindo numa época onde havia menos miséria e o sistema de comunicação estivesse desenvolvido, seu trabalho seria facilitado. Porém, há muitos pontos em sua vida, como esse, que fogem aos nossos conceitos: nasceu numa manjedoura, gostava de não se ostentar, escolheu uma equipe de discípulos totalmente desqualificada...”
Na verdade, se o autor encarasse Jesus como um ser humano complexo que foi, conseguiria entender (não fugiria ao seu conceito, ou seja, não seria algo misterioso) que a época em que ele nasceu, foi somente a época em que ele poderia ter nascido (o fato é que se fosse realmente enviado para expor um plano tão complexo de renovação da forma de pensar humana, ele poderia ter nascido em qualquer época... por que não na Idade Média? Ou, ainda, antes disso, evitando que as pessoas antes dele adorassem aos “deuses errados” sem saber?... Tudo isso só mostra que ele era apenas um ser iluminado, mas não “enviado”... como tantos outros, em diferentes momentos históricos, afinal, é de se supor que se fosse parte de um plano divino, estaria realmente em outro lugar e em outro tempo)
Nesse trecho o autor vislumbra o real trunfo de Jesus na época: “Não há dúvida que diversas pessoas o seguiam para atender às suas necessidades básicas e contemplar os seus atos sobrenaturais. Cristo tinha consciência disso. Porém, muitas o seguiam porque foram despertadas por ele, descobriram o prazer de aprender. Platão falou do deleite do processo de aprendizado. Se ele estivesse vivo na época de Cristo, provavelmente seria íntimo dele, ficaria encantado com a habilidade do mestre de Nazaré em conduzir as pessoas desprovidas de qualquer cultura a romper com a mesmice da rotina existencial e ter sede de se interiorizar.”
“Escolheu um grupo de homens iletrados e sem grandes virtudes intelectuais para transformá-los em engenheiros da inteligência e torná-los propagadores (apóstolos) de um plano que abalaria o mundo, atravessaria os séculos e conquistaria centenas de milhões de pessoas de todos os níveis culturais, sociais e econômicos...”
A meu ver, Jesus escolheu as pessoas erradas, mas estava entre a cruz e a espada – sem trocadilhos! Hahahah – porque se escolhesse incultos para propagarem suas ideias, como de fato fez, corria o risco de ver suas palavras distorcidas, como de fato acredito que aconteceu e se escolhesse os cultos escribas, correria o risco de não ser aceito como mestre, pois os cultos da época achavam que já sabiam tudo... um plano divino um tanto falho ou apenas um homem à frente de seu tempo, tentando fazer o que era possível na época?
O autor e todos os religiosos dizem que Jesus exaltava sua condição humana porque foi mandado à Terra justamente para provar o que seria essa condição e entender melhor o ser humano. Eu já interpreto da seguinte forma: as palavras de Jesus sobre ser “filho de Deus” foram interpretadas de forma a divinizá-lo, enquanto o que ele queria era apenas dizer às pessoas que existia algo grandioso além da vida, uma existência extra-física de onde todos viemos, mas quando percebeu que não estavam entendendo dessa forma, começou a destacar que era “filho do homem”, ser humano como qualquer outro, apenas com uma percepção diferente da existência.
Enfim, sobre esse livro é o que eu tinha a dizer... gostei do esforço intelectual do autor em argumentar pela existência de Jesus, o que me convenceu. Mas, ficou evidente que ele também acredita na sua divinização, embora não consiga argumentar suficientemente a favor, MAS, vale o livro e vale lembrar das coisas boas que esse grande pensador disse!

quinta-feira, 7 de março de 2013

Sobre a cassação do deputado homossexual


Agora os evangélicos estão querendo cassar o deputado Jean (aquele homossexual que ganhou o BBB há alguns anos), por falta de decoro parlamentar...

A Constituição Federal (artigo 55, parágrafo 1º) prevê como falta de decoro o abuso das prerrogativas pelo parlamentar, percepção de vantagens indevidas e atos definidos como tal nos regimentos internos.

As prerrogativas parlamentares são as imunidades das quais já falei anteriormente (sou contra algumas imunidades, mas isso nada tem a ver com o pleito dos evangélicos, uma vez que quem é contra as excessivas imunidades quer que a punição pelos crimes praticados, pelos parlamentares, ocorra ainda durante o mandato) No caso, o deputado Jean não cometeu crime algum, quem comete é quem pretende sua cassação apenas por ser homossexual e defender outros homossexuais.

Percepção de vantagens indevidas? Não me consta que ele tenha feito isso e, mais uma vez, nada tem a ver com o pleito dos evangélicos, uma vez que eles deixam claro que pretendem a cassação em razão das tentativas do deputado de defender os direitos dos homossexuais.

Regimentos internos, como se sabe, não elencam outros motivos de falta de decoro, além daqueles constantes na Constituição.

Assim, não vejo motivo algum para a cassação do nobre deputado, a não ser a ânsia evangélica de obedecer à interpretação bíblica que lhe passaram (lembro que existem VÁRIAS interpretações para os textos bíblicos).

Os evangélicos pretendem a legitimidade de seu repúdio aos homossexuais, baseados no cumprimento cego às escrituras...  Lembro aos caros leitores que seguidores de outras escrituras como o Corão, também tentam legitimar suas atitudes baseados na interpretação que lhes foi passada de seus livros sagrados.

Assim, penso que o melhor para a sociedade ainda é a obediência às leis que, a princípio, foram feitas em observância aos princípios atuais e uniformes que regem nosso país. (felizmente)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A culpada pela farra política no Brasil


Eu sei que prometi não falar de política, religião e futebol aqui... mas, já chutei o pau da barraca faz tempo... então agora é a vez da política!! rs

Muito se fala sobre os méritos da nossa Constituição Federal vigente (a primeira e única depois da ditadura), denominada constituição cidadã, pois ampliou direitos e garantias individuais e coletivas.
Ocorre que esta mesma constituição formulou certas prerrogativas (chamadas imunidades) às pessoas responsáveis por representar o país (diplomatas, presidente e parlamentares) que deveriam envergonhar qualquer pessoa em sã consciência.
A desculpa comumente usada é que a imunidade é funcional, ou seja, não existe em razão da pessoa que beneficia, mas em razão do cargo que ela ocupa... CLARO! Porque se o presidente rouba ou mata, quem vai querer processá-lo enquanto ele ainda é presidente?? O que importa é que ele continue sendo presidente da nação... Ou você não quer um ladrão assassino como seu representante???
Pois é, essa é a chamada imunidade penal temporária do Presidente da República. Ele não pode ser processado por crimes estranhos à sua função, enquanto for presidente. Agora, me diga, qual a vantagem para o país dessa imunidade? Tudo bem, ele pode ser processado depois que deixar de ser presidente... mas, se descobrirmos que ele é culpado, enquanto ainda é presidente, não seria melhor para o país?? NÃO!! Diz a Constituição que devemos fechar os olhos para os crimes do Presidente, enquanto tal.

E não pára por aí...

- Diplomatas estrangeiros e companhia (incluindo sua família e ajudantes) não podem ser processados aqui, por crimes cometidos aqui. Ou seja, se um diplomata estuprar uma menina aqui no Brasil, eventualmente poderá ser processado no seu país de origem... (entendeu a farra internacional que acontece na Bahia???)

- Os amiguinhos do parlamentar (outros senadores e outros deputados)  podem impedir o andamento das ações penais contra ele, enquanto ainda for parlamentar. CLARO, é melhor que ele continue sendo nosso representante e se for culpado, melhor não sabermos enquanto ele ainda nos representa!! (!)(artigo 53, parágrafos 3 a 5 da CF)

- Nenhum parlamentar (senador ou deputado) poderá ser preso por crime, antes de ser definitivamente condenado, a menos que:
a) o crime seja inafiançável,
b)que seja pego em flagrante  e, ainda,
c)se em 24 horas seus amiguinhos, deputados ou senadores, autorizarem a prisão!!! (artigo 53, parágrafo 2 da CF)

Ou seja, NUNCA SERÃO PRESOS ANTES DE SEREM CONDENADOS e NUNCA SERÃO CONDENADOS ENQUANTO FOREM PARLAMENTARES porque os amiguinhos podem impedir o prosseguimento do processo!!!

- Os parlamentares só serão julgados pelo STF (sim, aquele mesmo do Joaquim Barbosa) e NUNCA SERÃO JULGADOS EM TRIBUNAL DO JÚRI... ou seja, por mais que você goste do Joaquim Barbosa e ache o cara competente, terá que cruzar os dedos pra ele convencer seus coleguinhas ministros de condenar o parlamentar que matou seu tio, seu irmão ou sua mãe, enquanto dirigia bêbado em alta velocidade, pois um júri popular nunca poderá apreciar o caso.

Pois é, meus amigos... agora entendemos melhor onde está a causa da farra que vemos no Congresso Nacional... e o pior de tudo??? Pra mudar a Constituição,  precisa da aprovação de 3/5 dos votos de cada deputado e cada senador... HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Entendeu a piada???

Esse é o nosso Brasil!!!!!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2012 - um ano de superação!


Como é de praxe, vou sintetizar meu ano que passa em um textinho que você não precisa ler até o final, mas se ler, terá sorte até sua sétima geração (rsrs)

2012 foi um ano de superação pra mim. Comecei trabalhando em um emprego que achei por muito tempo ser o objetivo da minha vida e descobri que minha realização profissional estava mais na mão do que eu imaginava. Voltei a fazer o que eu fazia antes, com a diferença de que agora faço com prazer! (Nunca subestime a oportunidade de provar o lado de lá... você pode descobrir que o lado de cá é melhor pra sua vida)

Terminei de escrever meu livro “Como Vencer o Transtorno do Pânico” e tive momentos intensos durante a escrita... chorei, sorri, chorei de novo ao lembrar dos momentos que já passei com esse transtorno, mas hoje tenho certeza que posso superar tudo de novo, caso seja necessário! Eu tenho as armas!

Passei por um momento TENSO na caverna de PETAR, quando me vi a alguns metros debaixo do solo, passando por corredores apertados e escuros, sem saber por quanto tempo ainda ficaria naquele buraco sem fim e, de repente, percebo que minha respiração está ofegante e o pânico se aproxima... sem UM alprazolan sequer no bolso!!! Reuni todas as técnicas antipânico que já aprendi e saí ilesa da caverna... aprendi em PETAR que no dia a dia, você pode ser muito ágil nas tarefas que desempenha, mas no meio do mato, pode ser a última da fila e precisa ser humilde ao aceitar que todos estão em melhor forma, esperando por você... (Nenhuma condição é permanente – boa ou ruim).

Descobri que é delicioso questionar o inquestionável. Não é porque todo mundo pensa de uma mesma forma que eu preciso pensar também. Não preciso agradar a todos, mesmo porque com o tempo, aprendemos que isso é impossível (maturidade?). O importante é agradarmos a nós mesmos. Não digo isso de uma forma egoísta, mas com a certeza de que estar bem consigo mesmo é a melhor razão de continuar vivendo.

O conhecimento continua sendo um dos meus maiores prazeres nessa vida. Desde quando adquiri o vício pelo cheiro de livro novo, continuo correndo atrás de tudo que eu possa aprender... e felizmente, em 2012 tive acesso a MUITA informação interessante. A começar pelo Bóson de Higgs (rsrsrs)...

Sei que ainda tenho muito que aprender, especialmente no aspecto tolerância. A humanidade se divide em grupos que acreditam ter todas as respostas e geralmente acusam de ignorantes quem pensa diferente. Eu já fiz muito disso e continuo achando falhas colossais no pensamento alheio, mas é preciso lembrar que cada pessoa tem seu tempo. Cada pessoa aceita as verdades de acordo com suas possibilidades. Certa vez perguntei a um psicólogo por que uma paciente sua não desistia de um relacionamento que obviamente lhe fazia mal... ele disse que ela ainda não estava pronta para aceitar. E não adianta tentar enfiar conceitos na cabeça de quem não está pronto para aceitar.

Assisti filmes que pretendia ter visto há muito tempo. Revi “Contato” baseado no livro de Carl Sagan e amei tudo de novo. Adorei “2001- uma Odisséia no espaço” e fiquei fascinada ao descobrir que penso exatamente como Kubrick em relação à divindade. Li obras imprescindíveis como “Criação Imperfeita” do Marcelo Gleiser, “Deus – um Delírio” de R. Dawkins e outras nem tão imprescindíveis, mas altamente prazerosas como “50 tons...” RS

Em 2012 também achei que o mundo acabaria... E de certa forma, essa obsessão mundial em torno de 21/12/2012 contribuiu para o início de um novo ciclo, pois nunca tanto conhecimento foi difundido em tão pouco tempo. As pessoas resolveram estudar história pra ver se as culturas antigas realmente tinham algo a dizer; resolveram aprender um pouco de ciência pra verificar se realmente os polos geográficos mudariam de lugar (e aprenderam que polo geográfico não tem nada a ver com polo magnético rsrs); resolveram ler mais, mesmo que fosse pra aprender técnicas de sobrevivência... talvez o Keanu Reeves esteja certo no filme “O Dia em que a Terra parou” – a humanidade só muda quando chega no limite. E 21/12/2012 talvez tenha sido um limite (ainda que virtual) que precisávamos encarar.

Não fiz nenhuma viagem espetacular esse ano, mas saboreei cada momento junto de amigos e da minha família! Reforcei a ideia de que estar perto de quem amamos e de quem nos ama é o melhor remédio pra viver bem.

Tenho a esperança de que 2013 seja um ano de contatos. Contato com nosso eu superior (acredito que todos podemos projetar uma imagem nossa, muito mais evoluída e, quem sabe, tentar alcançá-la). Contato com o conhecimento que liberta e, por que não, contato com outras formas de vida, seja a nossa vida fora da Terra (expedições pra Marte à vista, galera), seja de outras vidas além da nossa. (O Universo REALMENTE é gigantesco e se somente nós existíssemos, seria mesmo um tremendo desperdício de espaço – beijo Carl Sagan!)

Quero muitas coisas para o ano que vem. Quero saúde pra aproveitar tudo de bom que a vida pode oferecer, quero mais conhecimento pra me libertar das garras da ignorância, quero paz de espírito pra não me alterar com os acontecimentos externos, quero o que todo mundo quer... ser feliz!!! E assim será!!!

              QUE VENHA 2013!!! NAMASTÊ!!!

sábado, 27 de outubro de 2012

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

KUBRICK E EU!


Descobrir que Stanley Kubrik pensava EXATAMENTE igual a você – NÃO TEM PREÇO! rs


“O conceito de Deus está no centro de 2001 – mas não qualquer imagem antropomórfica de Deus. Não creio em nenhuma religião monoteísta da Terra mas acredito que se pode construir uma definição científica de Deus.”

“Quando pensamos nos gigantescos avanços tecnológicos que o homem efetuou em poucos milênios – menos de um microssegundo na cronologia do Universo – não podemos imaginar a evolução que essas formas de vida muito mais antigas alcançaram. Elas podem ter progredido de espécies biológicas que são frágeis conchas para a inteligência, a imortais entidades e então, após inúmeras eras, podem ter emergido da crisálida de matéria, transformadas em seres de pura energia e espírito. Suas potencialidades seriam ilimitadas e sua inteligência inatingível pelos humanos. Tudo isso tem relação com o conceito de Deus em 2001. Porque esses seres hão de ser deuses para bilhões de raças menos avançadas no universo”

FONTE: Rubens Ewald Filho e entrevista de Kubrick à "Playboy" in http://textosparareflexao.blogspot.com/2009/05/2001-kubrick-e-o-monolito.html

domingo, 30 de setembro de 2012

Minhas impressões sobre Francis Collins em "A linguagem de Deus"


Por indicação de uma amiga crente (no sentido de "quem acredita"), li esse livro.

Collins é biólogo e foi o diretor da fase final do projeto genoma. Escreveu esse livro na tentativa de justificar sua fé num Deus interventor/criador e a ciência na qual também acredita.
Aprecio a tentativa de um cientista de harmonizar a sua fé religiosa com a racionalidade de seu trabalho. Mas, não acho que sua tentativa foi bem sucedida. Há partes do livro que me causam admiração, pela sinceridade com que Collins tratou o triunfo da ciência em relação à religião, mas outras partes não me convencem da harmonia entre o deus bíblico e a ciência...
Para quem interessar, segue meu estudo sobre o livro:
Preciso cumprimentar o autor quando levanta a questão do “deus das lacunas” no livro. Ele explica que os crentes que enfiam deus em todas as lacunas científicas correm o risco sério de ver sua fé rapidamente deteriorada, com a descoberta cientifica para a tal lacuna. Ele sabiamente diz que a origem da vida e suas lacunas (que aos poucos vão sendo cobertas pela ciência) “não é o lugar para uma pessoa inteligente apostar sua fé” (palmas!)
Como biólogo, ele sabiamente descarta o período cambriano (explosão de diversidade biológica na terra) como um período de interferência divina, pois a ciência e o raciocínio mostram que foi pura evolução. Ele ainda diz que “existem boas evidências das formas de transição de répteis para aves e de répteis para mamíferos”.
É lindo ler o relato dele da busca pelo gene causador da fibrose cística e depois a comemoração em lágrimas quando finalmente conseguiram encontrá-lo (renovando esperanças de uma cura). É digno de apreciação também, a sua honestidade quando diz que ficou em duvida ao ser convidado para assumir o projeto genoma e não “ouviu” a voz de deus quando orou por uma resposta, mas sentiu uma paz ao tomar sua decisão em aceitar. Ele não distorceu fatos e verdades a favor de sua crença.
Aplaudo também a distinção que ele faz sobre a palavra “teoria” da evolução que muitos crentes insistem em definir como “hipótese”, mas na verdade é um conjunto de princípios fundamentais que nada tem de incerto, mas totalmente certo, ou seja, a evolução não é uma “possibilidade”, mas uma certeza. Ao menos isso ele não nega.
E ainda, louvo sua tentativa de fazer os crentes menos científicos, a pararem de negar a evolução, como uma tentativa inútil de proteger a sua crença.
Ele diz a respeito do criacionismo bíblico literal que é “quase incompreensível que essa visão tenha atingido um respaldo tão abrangente, em especial num país como os Estados Unidos (45% acreditam no criacionismo da biblia) que afirmam ser tão intelectualmente avançados”.
Admiro sua honestidade ao descartar o maior trunfo dos criacionistas, o design inteligente e a teoria da complexidade irredutível como teorias plausíveis, pois realmente não passam de tentativas desesperadas de se apegar a lacunas no conhecimento cientifico (que vão sendo preenchidas a cada ano).
Mas, sou obrigada a discordar do autor quando diz que a evolução não contradiz a fé no deus da bíblia... é a mesma prática constante dos crentes que preferem ignorar o deus bélico do velho testamento e se concentrar somente no deus, por vezes, amoroso do novo testamento... dizer que Genesis é alegórico e o resto da bíblia não é, simplesmente joga pra debaixo do tapete a parte que foi desmentida e foca naquela que ainda não foi ou então nunca será, porque depende exclusivamente da mente predisposta a acreditar.

Collins já começa dizendo que “A ciência é incapaz de responder qual o sentido da existência humana”... o fato é que ela responde, mas não é a resposta que queremos ouvir...
Ele diz que “Na posição de um jovem que crescia em um mundo repleto de tentações era confortável não ter que responder a nenhuma autoridade espiritual...” (só posso concluir que o medo trouxe a sua fé de volta... )
O autor sustenta que em todos os povos, desde primitivos, há uma lei moral intrínseca do homem que obriga gentileza com os mais fracos, dar esmola, ser honesto... que a filosofia pós moderna está errada quando diz que não há certo e errado absolutos e que decisões éticas são relativas.  (a base da crença de Collins está no final do texto, mas aqui já indica um princípio adotado por ele para crer em deus – a lei moral intrínseca do homem seria indício de Sua existência)

O autor argumenta que o sentimento de deslumbramento do ser humano ao ouvir uma bela sinfonia ou ler um poema são manifestações divinas e, ainda, que o desejo de que exista um deus são provas de que ele realmente existe. O próprio autor cita a explicação de Freud para isso, a influência paternal que faz com que a criança, mesmo depois de adulta, continue desejando uma figura paterna com quem possa contar. Mas, ele diz que esse argumento é falho porque a criança conforme cresce, experimenta sentimentos de libertação dos pais, o que refletiria num desejo de que deus não existisse. (argumento pobre, porque a revolta da adolescência contra os “desmandos” dos pais não inibe completamente a necessidade genética de proteção paterna, que persiste no DNA – sem a existência dos pais, todo ser humano e animais que, da mesma forma, dependem dos pais para sobreviver nos primeiros anos de vida, não estaria vivo - sentimento este que nunca poderá ser eliminado pela revolta adolescente contra as ordens paternas)
Então ele diz que todo desejo só existe porque pode ser realizado, então o desejo de que deus exista só pode corresponder a uma realização. (argumento, no mínimo, infantil)

E quanto às barbaridades praticadas pela religião, primeiro ele “argumenta” dizendo que também foram praticadas coisas boas (a velha prática de fechar os olhos à parte ruim e só levar em consideração a parte boa, o que obviamente desestrutura qualquer sistema de crença) e depois diz que a religião é falha porque é feita por homens, mas o que se discute, quando se fala nas atrocidades religiosas não são as atitudes dos homens, mas os mandamentos do próprio “deus” contidos na bíblia... em especial no velho testamento que mostra um deus sempre ávido por guerras entre povos e mandando seus súditos exterminarem crianças para que ninguém do povo que “adora outro deus” sobreviva. (atitudes obviamente humanas e escritas como se viessem de um suposto deus que ainda insistem em defender como real)

Sobre a contradição entre um deus bondoso e as pessoas que sofrem pedindo por um milagre que nunca vem, o autor diz que “frequentes intervenções milagrosas seriam caóticas no plano físico”, então devo supor que deus realmente tem seus preferidos e faz os milagres (dentro da cota ‘não caótica’) só para os escolhidos... que provavelmente alguns crentes diriam que são os que o adoram sem questionar... trazendo à baila mais um sentimento absolutamente humano desse deus vaidoso que não admite ser questionado...rs
Nesse ponto que admiro a tentativa dos espíritas de explicar o sofrimento humano à luz da existência de deus... seria parte de um plano divino grandioso para “esculpir” nossas almas através da dor, para que possamos nos tornar seres melhores no futuro (após várias reencarnações de dor). Pelo menos a ideia não se torna absurda a ponto de defender milagres aleatórios ou para “preferidos”... ao menos, nesse contexto, deus estaria agindo de forma coerente e conduzindo um plano de aprimoramento da raça humana...
O autor cita a famosa frase de Stephen Hawking sobre a descoberta de uma eventual teoria final que nos permitiria “entender a mente de deus”, mas todos sabem que quando vários cientistas se referiram a “deus” dessa forma, estavam se referindo a uma eventual constância universal e não a um ser bíblico... sobre a teoria final, indico o livro de Marcelo Gleiser “Criação Imperfeita” que elucida melhor essa questão que as vezes confunde a ciência com a teologia.
O autor fala que “o big bang grita por uma explicação divina” e ele “não consegue ver como a natureza pôde ter-se criado”, mas logo depois, ele mesmo cita como os átomos se juntaram de forma natural até formarem estrelas, planetas e finalmente o homem, então porque antes disso, não poderia ter sido algo natural também? Só porque ele não entende ainda como aconteceu, não significa que não foi natural!
Quanto às questões teológicas extremamente relevantes que surgem quando pensamos na existência de vida extraterrestre (se deus criou outras criaturas, porque seu único filho salvou só a nós dos pecados? As outras criaturas são todas santas?? Se deus as fez santas, para não terem que se preocupar com o pecado vindo do tal “livre arbítrio”, porque não nos fez assim Tb? Etc, etc, etc), o autor faz como todos os crentes fazem, simplesmente passa pelo assunto rapidamente, dizendo que a probabilidade de não encontrarmos vida extraterrestre é grande.

Sobre o principio antrópico (o universo existe da maneira “certa” para que possamos existir) já coloquei um trecho do livro do Gleiser que explica que não há universo certo, apenas observadores tendenciosos (nós). O exemplo do peixe inteligente do Gleiser explica muito. (ver post - NÃO EXISTE UNIVERSO CERTO)
O próprio autor, no final do tópico, diz que na verdade quem quer acreditar em deus escolhe o principio antrópico, mas a sua probabilidade está em pé de igualdade com a teoria dos multiversos, que também explica a suposta predeterminação do universo para a existência a vida, de forma totalmente cientifica e natural.

É desconcertante ver o quanto um cientista cuja predisposição emocional o obriga a acreditar em deus, tenta justificar sua crença em “séculos de história e altruísmo”. Não é porque as pessoas têm acreditado numa mentira há séculos que ela vira verdade. E sobre o altruísmo, ele não leva necessariamente a deus, como diversos autores já discutiram.
Ele escolhe acreditar num tipo de ideia que poderia ser compatível com a existência de um deus interventor, dizendo que o universo surgiu do nada (o que não é verdade, segundo a teoria dos multiversos ou mesmo segundo recentes descobertas do bóson de higgs), que o universo está ajustado para a criação da vida (o que também é refutado brilhantemente por Marcelo Gleiser e pela teoria dos multiversos) e que a evolução seria a maneira que deus escolheu de criar tudo (???)
Concordo que se deus sabe de tudo, embora o processo evolutivo seja aleatório, ele poderia prever todas as interferências para que no final o resultado fosse como desejado, MAS, se sua intenção era criar o homem, não seria mais lógico ter criado logo de uma vez?? Ao invés de fazer milhões de cálculos (se existe esse deus, certamente é matemático!!! RS) para impedir que eventos aleatórios não desejados interferissem no resultado final?
Infelizmente para o autor, essa alternativa não é a mais “consistente em termos científicos”, basta ler sobre as recentes descobertas científicas e as teorias que citei acima.
A verdade é que a ciência aponta para o abandono da noção de deus criador e/ou interventor... se existe algum ser infinitamente superior a nós, ele existe em função de processos naturais de evolução, conforme todas as evidências apontam desde o surgimento o universo até o surgimento do próprio homem. É assim que a natureza funciona e é assim que a eventual existência de um ser superior vai ser possível. Se ele vai intervir na Terra em algum momento ou se interviu no passado (supondo que um ser infinitamente evoluído tenha encontrado formas de viajar no tempo e espaço), certamente não foi para nos aprisionar em conceitos de adoração irracional, mas para tentar impulsionar a humanidade para a mesma evolução que, quem sabe, um dia será também comprovada fora dos padrões físicos.
No final do livro, o autor traz um exemplo de seu suposto amor ágape por doentes na África, que o levou a fazer uma viagem pra salvar vidas (mas, não percebe que no mesmo trecho cita seu verdadeiro impulso egoísta de ser o “salvador branco” que o teria levado até lá).
Não quero desmerecer trabalhos como o que ele fez com os doentes, mas infelizmente isso não justifica a existência de um deus interventor, que teria colocado o amor no nosso coração só para que soubéssemos de sua existência... o amor é um sentimento que geralmente espera algo em troca, mesmo que seja a satisfação pessoal de ser apreciado por seu ato.
O autor ainda cita Lewis, mais uma vez, para dizer que Jesus não foi apenas um grande educador, mas o filho de deus... infelizmente, a citação se esvai por si só... não explica nada. Lewis, na comum fúria cristã, diz que “você pode cuspir nele (Jesus) e matá-lo como se fosse um demônio, ou pode cair a seus pés e chamá-lo de senhor e deus”... não existe a alternativa do meio? Por que ele não poderia ser simplesmente um homem à frente do seu tempo, como tantos outros na história? Simplesmente porque não se quer acreditar nisso.
Acho engraçado como ele defende o livre arbítrio teoricamente dado por deus... Ele diz “imagine esse mundo se a oportunidade de escolher livremente uma crença tivesse sido removida em virtude da certeza das evidências. Que desinteressantes seria, não?”
Ahhh, por favor! Se houvesse apenas uma crença baseada em evidências, não existiriam as guerras religiosas, responsáveis pelas maiores atrocidades cometidas na historia da humanidade. Se todos pensassem da mesma forma, BASEADOS EM EVIDENCIAS (o que seria ainda melhor, porque garantiria ao menos que esse pensamento estaria correto), não haveria discórdia! E um cientista dizendo que isso seria desinteressante é um argumento triste.
Acho engraçado dizer que deus nos deu o livre arbítrio para acreditarmos no que quisermos, mas se não acreditarmos nele, então seremos punidos... que livre arbítrio é esse?? E se deus é tão superior, sabe o quão “involuídos” espiritualmente nós somos e, só por isso, olharia para nós com compreensão se decidíssemos não acreditar nele e não com sentimento de punição (mais uma vez, essencialmente humano).
Por todos esses motivos, não acredito no deus, essencialmente humano, da bíblia... as histórias lá contadas são fruto da imaginação ou da fraude de homens que precisavam de um argumento de poder para liderar (especialmente no velho testamento -  não se pode simplesmente ignorar aquele deus que agia como humano e dizer que no novo testamento, ele se redimiu e começou a pregar a bondade para com todos, além do povo dele)... se a bíblia fala de um deus só, então é nesse único deus, essencialmente humano, em quem não acredito.
O que os cristão não entendem é que não acreditar no deus da bíblia, não me impede de acreditar no sobrenatural... eu posso acreditar na existência de um ser superior que não seja o deus da bíblia (24horas observando se alguém deixa de acreditar nele, para, então, puní-lo de alguma forma), mas um ser superior ou, em termos evolutivos e mais prováveis, VÁRIOS seres superiores, que eventualmente podem vir a se preocupar conosco, mas não no intuito bíblico, essencialmente humano, de angariar seguidores para satisfazer uma vaidade, essencialmente humana. Seria um ser superior com uma genuína preocupação com um quase semelhante (em termos evolutivos) que eventualmente teria interesse em nos ajudar a passar por essa fase tão primitiva em que nos encontramos (que esse deus já superou há muito tempo)... pra mim esse seria o deus mais lógico para qualquer cientista... uma criatura tão evoluída que para nós, pode ser encarada como “deus”... mas, que está de acordo com a ciência da evolução e com as observações empíricas que fazemos.
Porque não pode haver existência de algum tipo de vida após a morte, mas que continue evoluindo nos mesmos padrões que observamos no mundo físico? Se o bóson de higgs, descoberto recentemente, apresenta uma variante da teoria do surgimento do universo, indicando que ainda antes do big bang, houve uma outra fase de interação da matéria com o imaterial, porque o oposto não pode acontecer quando a nossa matéria morre e talvez ainda continue existindo algum tipo de imatéria que nos caracterize? E que vai continuar seu caminho evolutivo ou não, da mesma forma que a matéria... sem depender da interferência de um poder criador, mas de combinações de circunstâncias e eventos físicos (lembrando que a física teórica também se aplica à “imatéria”). Einstein já dizia que matéria e energia (imatéria) são intercambiáveis.. o que impede de descobrirmos que a matéria vira energia consciente após a morte?
Acho engraçado que quando se fala de deus e religião, a fé não precisa ser provada e não pode ser questionada, mas quando a situação se inverte, os primeiros a exigirem provas são os “crentes”... o autor diz que os milagres são raros, mas para quem acredita num deus interventor, eles existem e para quem não acredita, eles podem ser explicados pelas leis da natureza e então o autor lança a pérola “pode, porém, esse ponto de vista ser totalmente confirmado?”, ou seja, se as leis da natureza não explicam tudo, só pode ser intervenção divina...
Isso só reforça a minha ideia de que a crença num deus interventor (o deus da bíblia) é puramente opcional... se o individuo apresenta uma forte necessidade emocional de ter um pai protetor sempre presente (Freud já explicou isso), então ele vai distorcer todos os fatores a favor dessa crença... mas, isso é mais emocional do que racional e não explica nada... (eu sei que dirão, mais uma vez, que a fé não precisa ser explicada, mas as contradições precisam e essa historia do deus da bíblia tem muitas contradições que não se sustentam a um simples olhar racional... e como eu digo, a lógica não pode ser abandonada a favor da fé, porque os próprios princípios da fé devem ser coerentes entre si, senão vira coisa de louco!)
Mesmo que a ideia que você vai defender seja baseada em fé, os princípios dessa fé não podem se contradizer para ter sentido... a questão é justamente que a lógica não pode ser afastada nem dos que alegam que a fé não precisa de provas... mesmo uma premissa que se afirme por si só (independente de provas) precisa seguir uma coerência lógica com o raciocínio que vier depois (seja qual for) e isso que muitos crentes não entendem. (embora o autor, em muitos trechos do livro tenha buscado essa coerência, rejeitando o criacionismo bíblico literal e outras teorias absurdas que tentam explicar a fé em deus interventor)

O autor ataca o ateísmo porque diz ser “uma posição logicamente indefensável”(!?), mas quase defende o agnosticismo, por ser “compatível com a teoria da evolução e muitos biólogos se colocariam nesse campo”... se o agnosticismo é compatível com a teoria da evolução, porque o cristianismo também seria? O problema é que ele se força a tomar uma posição frente os dados que temos hoje. (o que pode levar a uma conclusão FORÇADA por medo de ficar em cima do muro e vir a ser punido...) preciso discordar do seu comentário quando diz que “é raro ver um agnóstico que se empenhou em avaliar todas as evidências favoráveis e contrárias à existência de deus”...baseado em que ele diz isso??? Essa afirmação circula no campo daquelas que dizem “todo crente é desprovido de lógica”... o que é uma generalização perigosa.
Não acho justo encarar o agnosticismo como covardia. Se uma pessoa não considera suficientes nenhum dos argumentos apresentados, por que deve ser obrigada a escolher algum, ao invés de esperar pelo surgimento de outro melhor? A ciência e a própria filosofia humana progridem a cada dia... quem garante que no futuro não existirá uma explicação melhor e mais aceitável pra mim, do que as que existem hoje? Chamar agnosticismo de covardia é querer incutir na mente do outro as próprias convicções, típico da natureza do ser humano, mas inválido como argumento.
Enfim, a tentativa do Collins de harmonizar seu trabalho científico (de grande valor) à sua crença religiosa é falha, pois os maiores argumentos usados (lei moral do homem, universo vindo do nada e universo “certo” para o homem) já foram longamente refutados por vários pensadores. A verdade é que a crença no deus da bíblia continua sendo uma escolha, que também não resiste a argumentos lógicos e comumente apela para a “fé cega”, que não precisa de provas. O que os crentes não entendem é que todo sistema de crenças (seja ele baseado em fé ou não) deve ter coerência em suas premissas, o que não acontece com a fé no deus da bíblia... não é uma questão de impor a razão à fé, mas de pretender qualquer raciocínio lógico sobre as próprias premissas daquela fé. Os crentes têm dificuldade de entender isso, mas a verdade é que suas premissas são contraditórias por si mesmas... independente da fé ser provada ou não. Gostaria de ver algum crente realmente entendendo esse argumento para que, então, qualquer tentativa de debate pudesse se realizar.