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quinta-feira, 12 de julho de 2012

As perguntas que não ousamos fazer!

(inspirado no livro “Variedades da Experiência Cientifica - Uma visão pessoal da busca por Deus” uma compilação de palestras de Carl Sagan)
E se eu provar que mais de metade da população mundial, NOS DIAS DE HOJE, ainda acredita que a Terra é o centro do Universo?? Como? Ora, sabemos que o Universo é gigantesco (pra usar uma expressão que chega a ser eufemista), sabemos da enorme probabilidade de existir mais vida inteligente no Universo, além da nossa (na maioria dos casos RS). Então, o que nos leva a crer que somos TÃO especiais a ponto do único filho do Deus Criador Todo-Poderoso ser mandado para nos salvar e somente a nós??
O geocentrismo continua enraizado na nossa mente, tão forte quanto no tempo de Copérnico. O problema é que a humanidade sofre de uma cegueira tão forte que não consegue enxergá-lo.
Thomas Paine em seu livro “A era da razão” diz “De onde, então, pôde surgir o estranho conceito de que o Todo-Poderoso, que tinha milhões de mundos igualmente dependentes de sua proteção, deveria parar de cuidar de todo o resto e vir morrer em nosso mundo porque, como dizem, um homem e uma mulher comeram uma maçã? E, por outro lado, devemos acreditar que todos os mundos na criação infinita tiveram uma Eva, uma maçã, uma serpente e um redentor?”
Carl Sagan diz que esse é um deus de um mundinho pequeno, um problema que os teólogos não trataram de maneira adequada. (não usaram as metáforas apropriadas? RS)
Aqueles que inicialmente nos imaginavam no centro do sistema solar, com a explosão intelectual do heliocentrismo, começaram a imaginar se pelo menos o centro da galáxia nos estava reservado... com a evolução da ciência, descobriu-se que não, então começaram a se perguntar se ao menos o centro do Universo pudesse ser nosso... mas, o centro do Universo não existe. Todos que desejaram um sentido cósmico central para nós ficaram cada vez mais decepcionados. (talvez a humildade que as religiões, tão convenientemente pregam, deveria ser utilizada também na sua ideia central – do Todo-Poderoso focado somente na Terra – o problema é que, na época em que as Escrituras foram feitas, não existia tanto conhecimento, então a doutrina não poderia ser tão abrangente, justamente porque criada por homens limitados)
Sagan, com seu brilhantismo, nos lança algumas questões a esse respeito:
Por que, afinal, é necessário que Deus intervenha na história da humanidade, nos assuntos humanos, como presumem quase todas as religiões? Que Deus ou deuses desçam à Terra e digam aos seres humanos: “Não, não faça isso. Faça aquilo, não se esqueça disso, não reze desse jeito, não idolatre ninguém mais, mutile seus filhos assim, assim”.
Porque existe uma lista tão longa de coisas que Deus pede às pessoas que façam?Porque Deus não fez do jeito certo de uma vez? Ele criou o Universo, então pode fazer qualquer coisa... A intervenção de Deus nos assuntos humanos revela incompetência, diz Sagan.
E é perfeitamente possível imaginar que Deus, não um deus onipotente ou onisciente, só um deus razoavelmente competente, poderia ter criado provas absolutamente indubitáveis de sua existência.
Imaginem que exista um conjunto de livros sagrados em todas as culturas, em que haja algumas frases enigmáticas que Deus ou os deuses tenham pedido aos nossos ancestrais para transmitir sem modificações para o futuro. Seriam frases que hoje reconheceríamos, mas que não pudessem ser reconhecidas naquele tempo. “Não se esqueçam, o Sol é uma estrela”... nossos ancestrais diriam “Hein???” Mas repassariam a informação nas Escrituras, porque foi Deus que mandou... ou que tal “Não viajarás mais rápido que a luz”?
Em outras palavras, porque Deus seria tão claro na Bíblia e tão obscuro no mundo? (por favor, tenham um pouco de vergonha e não usem o argumento de que Deus testa nossa fé se escondendo... quer dizer que a fé de quem escreveu as Escrituras não precisava ser testada e Ele podia aparecer numa boa, naquela época?)
Não há dúvida de que a religião tem tido o papel histórico de fazer com que as pessoas se contentem com o que possuem. Até hoje costuma-se argumentar que a veracidade ou a falsidade da doutrina religiosa importa menos do que o grau de estabilidade social que ela proporciona.
Não é muito difícil perceber que uma doutrina como essa seria bastante atraente para as classes dominantes de uma sociedade. (não tenho dúvidas de que é por isso que a religião ainda é tão incentivada e difundida – fora o fato de que as pessoas não estão acostumadas a fazer perguntas...)
Muitas religiões estabelecem um conjunto de preceitos – coisas que a pessoa tem que fazer – e afirmam que essas instruções foram dadas por um deus ou por deuses. O primeiro código legal, de Hamurabi, da Babilônia, por exemplo, em 2.000 a.c. foi entregue a ele pelo deus Merodaque, ou pelo menos foi o que ele disse...(eu toquei numa pedra escrita por deus e não sabia!!!!!!!!) Se Hamurabi tivesse simplesmente dito “Aqui está o que acho que todo mundo tem que fazer”, ele teria tido muito menos sucesso, mesmo sendo rei da Babilônia, do que dizendo: “Deus diz que vocês devem fazer isso”.
Não é provável que, em tempos mais primitivos, em circunstâncias menos sofisticadas, quem quisesse impor determinado conjunto de princípios de comportamento alegasse que eles lhes tinham sido entregues por deus, ou por deuses?

Sagan termina perguntando se em uma projeção de vinte, cinquenta ou cem anos no futuro, possa haver um mundo em que tenhamos recobrado a razão, em que tenhamos entendido as coisas. Ele diz que podemos fazer isso.
Já existiu, por exemplo, uma doutrina sobre o direito divino dos reis. Segundo ela, Deus dava aos reis e rainhas o direito de mandar em seu povo. E naquela época, mandar queria mesmo dizer mandar!
Mas mesmo assim, aconteceu uma série de revoluções no mundo inteiro (revoluções intelectuais) – a americana, a francesa, a russa – que deram origem a um planeta em que ninguém, excetuando um ou outro imperador atavista ocasional de algum paisinho incipiente, ninguém acredita no direito divino dos reis. Hoje é meio que uma vergonha. Uma coisa em que nossos ancestrais acreditaram, mas que nós, nestes tempos mais esclarecidos, não acreditamos.
Ou pensem na escravidão, que Aristóteles defendeu como a ordem natural das coisas, que os deuses a exigiam, que qualquer movimento para libertar os escravos ia contra o desígnio divino. E os proprietários de escravos, ao longo da história, usaram trechos da bíblia para justificar essa propriedade (como já falei antes, trechos bons ou convenientes existem em qualquer livro...) E hoje, em mais uma sequencia de acontecimentos no mundo inteiro, a escravidão legal foi praticamente eliminada. E outra vez é uma coisa do nosso passado do qual nos envergonhamos...
Ou mesmo coisas como a varíola e outras doenças desfigurantes e fatais, doenças infantis, que um dia foram vistas como uma parte inevitável da vida, determinadas por Deus (era a Sua vontade). O clero alegava, e parte dele ainda alega, que essas doenças foram enviadas por Deus como uma punição para a humanidade (que dizer dos cristãos que recentemente declararam que a Aids era uma punição de Deus para os homossexuais?). Com algumas dezenas de milhões de dólares e o esforço de médicos de cem países, coordenados pela OMS, a varíola foi eliminada da face do planeta Terra (e nem precisou da ajuda da mão divina... ou será que Deus ficou bravo por termos, na nossa insignificância, eliminado uma poderosa arma Sua de punição? Será que Deus não quer que achemos a cura para a Aids?)
Carl Sagan diz que precisamos ter a determinação corajosa de encarar o Universo como ele é de verdade, não impondo a ele nossas predisposições emocionais (necessidade de um pai que nos proteja constantemente – a raiz psicológica disso não deveria ser óbvia???), mas aceitando com coragem o que nossa exploração revelar.

GRAAAAAAAAAAANDE CARL SAGAN!!!!!!!!!!!!
Eu sei que você era contra qualquer tipo de idolatria (porque idolatrar alguém, significa acomodar-se em ser inferior ao objeto de idolatria e isso é inaceitável para uma mente brilhante), MAS CARL, EU ADOROOO VOCÊ!!!!!! Rsrsrsrsrs
E espero, sinceramente, mesmo sem acreditar num Deus Todo-Poderoso e Criador, que você esteja me ouvindo nesse instante de algum lugar... Porque, te parafraseando, uma só vida pra você, seria um desperdício de genialidade!!!!!!
Euzinha e o divino Código de Hamurabi (Louvre, Paris)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A ciência e suas peculiaridades


Nossaaaa, quase enlouqueci nesse feriado!! Fiquei estudando física, química e matemática! Bom, na verdade estudei indiretamente...rs Estou terminando “Criação Imperfeita” do Marcelo Gleiser e amandooO!!!
Se queremos falar da origem da vida (ou qualquer assunto), precisamos saber do que estamos falando... por isso eu leio e aprendi MUITO sobre a cosmologia (não só moderna, como antiga) nesse livro!
Ele traz um resumo bastante acessível, da história das maiores descobertas físicas realizadas pelo homem, na busca por sua origem.
Marcelo Gleiser confronta a ideia moderna de muitos cientistas que buscam por uma Teoria Final (uma unificação de tudo que existe em um denominador comum, segundo ele, o equivalente ao criacionismo dos religiosos, mas para a ciência) que ele também já buscou, mas hoje não acredita mais. Ele diz que somos como um peixe que vive aprisionado num aquário; mesmo que o nosso aquário cresça sempre (pois é isso que ocorre com o corpo do conhecimento humano), tal como o peixe, nunca poderemos sair dele e explorar a totalidade do que existe. Haverá sempre um “lado de fora”, além do que podemos explorar. E precisamos humildemente reconhecer que, quanto mais respostas encontrarmos, mais perguntas surgirão. O que não invalida de forma alguma a busca pela “verdade final”.
Uma curiosidade SUPER interessante do livro é a história de Kepler e o seu mysterium cosmographicum (a figura da foto que, naquela época, descrevia perfeitamente como Deus teria criado o Universo)

Kepler era geométrico e, como todos os profissionais das diversas áreas, achou que a sua área poderia explicar perfeitamente a “mecânica” do Universo. Assim, separou os 5 sólidos perfeitos que conhecia (nenhum outro sólido tridimensional fechado pode ser construído a partir de apenas um objeto bidimensional – triângulos, quadrados e pentágonos. Os dois mais familiares são o cubo (feito de seis quadrados) e a pirâmide (feita de quatro triângulos equiláteros). Os outros três são o octaedro (oito triângulos equiláteros), o dodecaedro (doze pentágonos) e o icosaedro (vinte triângulos equiláteros).
Kepler imaginou que os cinco sólidos deveriam se encaixar um dentro do outro, como num quebra cabeça. Entre cada dois sólidos, uma esfera imaginária localizava a órbita planetária (na época se conheciam somente 6 planetas do nosso sistema). A incrível coincidência é que, para a época, a montagem dos sólidos, intercalando com os planetas, era perfeita, pois se existiam apenas 5 sólidos perfeitos e 6 planetas, sua dinâmica no modelo de Kepler daria certo para que não sobrasse nenhum fora da estrutura)
Kepler experimentou alguns arranjos para os cinco sólidos e encontrou um que coincidia com uma precisão surpreendente, com as distâncias entre os planetas medidas pelos astrônomos.
Com essa sacada genial, Kepler “resolveu” o maior mistério da astronomia, explicando a priori não só porque existiam apenas 6 planetas, mas também as suas distâncias em relação ao sol.
Apenas um cosmo desenhado por um Deus geômetra respeitaria as mais perfeitas proporções. Em sua estrutura simétrica, revelava a beleza divina da Criação.
Como que alguém tão errado poderia estar tão convicto de estar certo? Temos muito o que aprender com o erro de Kepler. A partir da nossa perspectiva moderna, é fácil ridicularizar a sua criação, chamá-la de delirante. Afinal, são oito planetas no sistema solar (Plutão foi rebaixado) e não seis. Se Kepler pudesse vê-los todos a olho nu, não haveria proposto o seu modelo e sua carreira teria tomado outro rumo. Sua visão limitada da realidade foi a sua bênção.
O que ocorreu com Kepler continua a ocorrer nos dias de hoje: construímos nossa visão de mundo com os dados que temos no momento. (E o mais incrível, é que as vezes parece se sustentar cientificamente)
Para ele, a ordem que vislumbrou era bela demais para não ser verdadeira. Marcelo afirma que, visto que jamais seremos capazes de medir tudo que existe, seu erro foi ter acreditado que é possível construir uma Teoria Final. Sempre haverá algo que nos escapará, algo além do alcance de nossos instrumentos. Nessa escuridão perene que nos cerca, podem ocultar-se grandes revelações, potencialmente capazes de reformular nossa visão de mundo.

É nesse espírito que Marcelo escreveu seu brilhante livro... sem profetizar um Deus criador (todos que estudam deixam de acreditar nisso, eventualmente), mas imbuído de um sentimentalismo que o faz crer que a ciência não tem todas as respostas... e, assim, quem garante que não existe o sobrenatural?

No meu modesto livrinho “Levei um Fora e Agora?”, já deixei o exemplo da “mão em terceira dimensão” (se quiser saber, leia! RS) que indica que nunca seremos capazes de decifrar todos os mistérios do Universo, pois sempre estaremos limitados por nossas condições físicas e cerebrais que ditam até onde podemos chegar...
RACIONAL, sem deixar de ser emocional!!!


domingo, 8 de julho de 2012

Ao mestre com carinho (To sir with love)



Que coisa mais LINDA!!! A gratidão dos alunos pelo conhecimento transmitido pelo professor!!! Sempre que vejo esse filme fico com um nó na garganta... Ah, se todos os professores soubessem incitar essa paixão pelo conhecimento, o mundo seria BEM diferente...

sábado, 7 de julho de 2012

Por que ser "bom" (ou a moralidade) não depende da religião!

Advertência- Para os propensos à irritabilidade, declaro que o texto que segue foi TRANSCRITO do livro Deus- Um Delírio de Richard Dawkins e apenas o REPRODUZO aqui para fins de conhecimento, pois meu post anterior suscitou comentários de que Deus - na verdade Deus fala através da Bíblia, então em última análise, continua sendo a religião - seria necessária para o “bom caráter”, a "virtude" do homem...
COMEÇA A TRANSCRIÇÃO: 
Quem pretende basear sua moralidade literalmente na Bíblia ou nunca a leu ou não a entendeu.
Os teólogos, irritados, protestarão dizendo que não se interpreta mais o livro do Gênesis em termos literais. Mas é exatamente isto que estou dizendo! Escolhemos em que pedacinhos das Escrituras devemos acreditar, e quais pedacinhos descartar, por símbolos ou alegorias. Essa escolha é uma decisão pessoal, tanto quanto a decisão do ateu de seguir este ou aquele preceito moral foi uma decisão pessoal, sem nenhum fundamento absoluto. Se uma coisa é “moralidade a olho”, a outra também é.
Só para citar algumas passagens estarrecedoras do Antigo Testamento (como forma de confrontar a moralidade pregada na Bíblia):
Na destruição de Sodoma e Gomorra, Ló recebeu os anjos com hospitalidade e então todos os homens de Sodoma reuniram-se em torno da casa dele e exigiram que Ló entregasse os anjos para que eles pudessem (o que mais?) sodomizá-los: “Onde estão os homens que vieram para tua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos” (gênesis 19,5). A bravura de Ló ao recusar-se a ceder à exigência sugere que Deus deve até ter tido razão ao considerá-lo o único homem de bem de Sodoma. Mas a auréola de Ló fica manchada com os termos de sua recusa: “Rogo-vos, meus irmãos, que não façais mal; tenho duas filhas, virgens, e vo-las trarei; tratai-as como vos parecer, porém nada façais a estes homens, porquanto se acham sob a proteção de meu teto” (gênesis 19, 7-8)
Outra história arrepiante:
Deus determinou que Abraão transformasse seu filho querido numa oferenda em forma de fogo. Mas, no fim das contas, Deus estava apenas brincando, “tentando” Abraão e testando sua fé. Um moralista moderno não poderia deixar de imaginar como uma criança conseguiria se recuperar de tamanho trauma psicológico.
Mais uma vez, os teólogos modernos protestarão dizendo que a história do sacrifício de Isaac por Abraão não deve ser encarada como um fato literal. Em primeiro lugar, muitíssima gente, até hoje, encara, sim, as Escrituras como fatos literais. Em segundo, se não for como fato literal, como deveríamos encarar a história? Como uma alegoria? Alegoria de quê, então? Certamente de nada digno de louvor. Como lição moral? Mas que tipo de princípio moral pode-se tirar dessa história apavorante? Lembre-se que só estou tentando dizer, por enquanto, que na verdade nós não retiramos nossos princípios morais das Escrituras. Ou, se retiramos, escolhemos os trechos mais agradáveis daqueles textos e rejeitamos os desagradáveis. Mas aí precisamos ter algum critério independente para decidir quais trechos são os morais: um critério que, venha de onde vier, não pode vir da própria escritura, e está supostamente disponível para todos nós, sejamos ou não religiosos.
O livro dos Números conta como Deus incitou Moisés a atacar os midianitas. Seu exército tratou de matar todos os homens e incendiar todas as cidades midianitas, mas poupou as mulheres e as crianças. Esse comedimento piedoso dos soldados enfureceu Moisés e ele ordenou que todos os meninos fossem mortos, e todas as mulheres que não fossem virgens. “Porém todas as meninas, e as jovens que não coabitaram com algum homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós outros” (números 31,18)
Eu sei, eu sei, é claro, os tempos mudaram, e nenhum líder religioso de hoje em dia (tirando os do Talibã ou seus equivalentes cristão americanos) pensa como Moisés. Mas é isso que estou dizendo. Tudo o que estou afirmando é que a moralidade moderna, venha de onde vier, não se origina da Bíblia.
Por que critério alguém decide quais trechos são simbólicos e quais são literais?
O que me deixa de queixo caído é que as pessoas de hoje em dia queiram basear sua vida num exemplo tão aterrador ...e pior ainda, que queiram impor esse mesmo monstro do mal (nota MINHA - estou TRANSCREVENDO o que Richard Dawkins escreveu no livro, pessoalmente não diria de maneira tão contundente) ao resto de nós.
Talvez eu esteja sendo injusto. Os bons cristãos terão protestado durante todo este trecho: todo mundo sabe que o Antigo Testamento é bem desagradável. O Novo Testamento de Jesus desfaz o prejuízo e conserta tudo. Não é verdade?
Bom, não há como negar que, do ponto de vista moral, Jesus é um enorme avanço se comparado com o ogro cruel do Antigo Testamento. Jesus... foi certamente um dos grandes inovadores éticos da história. O sermão da montanha é bastante progressista. Seu “ofereça a outra face” antecipou Gandhi e Martin Luther King em 2 mil anos.
...existem outros ensinamentos no Novo Testamento que nenhuma pessoa de bem apoiaria. Refiro-me especialmente à doutrina central do cristianismo: a da “expiação” do “pecado original”. Esse ensinamento, que está no cerne da teologia do Novo Testamento, é quase tão repulsivo em termos morais quanto a história de Abraão preparando-se para transformar Isaac em churrasquinho.
Acredita-se que o pecado de Adão e Eva tenha sido transmitido ao longo da linhagem masculina – transmitido pelo sêmen, de acordo com Santo Agostinho. Que tipo de filosofia ética é essa que condena todas as crianças, mesmo antes de nascer, a herdar o pecado de um ancestral remoto?
...
Agora o sadomasoquismo. Deus encarnou-se como homem, Jesus, para que pudesse ser torturado e executado em expiação do pecado hereditário de Adão. Desde que Paulo expôs essa doutrina (...), Jesus vem sendo adorado como o redentor de todos os nossos pecados. Não apenas o pecado passado de Adão: pecados futuros também, decidam ou não as pessoas futuras cometê-los!
...Se Jesus queria ser traído e depois assassinado, para que pudesse nos redimir, não é injusto por parte daqueles que se consideram redimidos descontar em Judas e nos judeus por toda a eternidade? (já que sua “traição” era uma parte necessária do plano cósmico e ele não poderia fugir dela ou então, toda a fundamentação da religião estaria extinta)
Se Deus quisesse perdoar nossos pecados, por que não perdoá-los, simplesmente, sem ter de ser torturado e executado em pagamento – condenando, dessa forma, as gerações futuras e remotas de judeus a perseguições por serem os “assassinos de Cristo”...
Ah, mas é claro, a história de Adão e Eva era apenas simbólica, não era? Simbólica? Então, para impressionar a si mesmo, (Deus, na forma de Jesus) fez-se ser torturado e executado, numa punição indireta por um pecado simbólico cometido por um individuo inexistente?
...
“Amai ao próximo” não significa o que achamos hoje que significa. Significava apenas “amai outro judeu”. Essa tese é defendida de forma arrasadora pelo físico americano e antropólogo evolucionista John Hartung. (disponível em http://www.lrainc.com/swtaboo/taboos/ltn01.html)
Jesus limitou seu grupo de salvos estritamente aos judeus, no que respeitava a tradição do Antigo Testamento, que era tudo que conhecia. Hartung mostra claramente que “Não matarás” jamais quis significar o que achamos hoje que significa. Significava, de uma maneira bem específica, que não matarás judeus. E todos os mandamentos que fazem referência ao “próximo” são igualmente excludentes. “Próximo” significa camarada judeu.
Hartung usa muitas citações bíblicas do tipo das que usei neste capítulo, sobre a conquista da Terra Prometida por Moisés, Josué e os Juízes (para defender seu argumento).
Para mim, isso comprovou que nossos princípios morais, sejamos nós religiosos ou não, vêm de outra fonte e que essa outra fonte, seja qual for, está disponível para todos nós, independentemente da religião ou da ausência dela.
Mas Hartung conta um estudo apavorante feito pelo psicólogo israelense George Tamarin (basicamente deram um texto bíblico para crianças lerem, onde Deus manda destruir uma cidade e todo ser vivo nela, “porque o SENHOR vos tem dado a cidade”, depois fez a pergunta moral às crianças “Vocês acham que Josué e os israelitas agiram bem ou não?” A maioria aprovou a atitude sangrenta, com algumas justificativas temerosas como “Josué agiu bem porque o povo que morava na terra era de uma religião diferente, e quando Josué os matou ele varreu a religião deles da face da Terra” e “Josué agiu certo e um dos motivos é que Deus mandou que ele exterminasse o povo para que as tribos de Israel não fossem assimiladas entre eles e aprendessem seus maus hábitos”)
Essas considerações enchem-me de desespero. Elas parecem mostrar o imenso poder da religião, e especialmente da educação religiosa das crianças, para dividir as pessoas e alimentar as inimizades históricas e vendetas hereditárias.
Mesmo que a religião em si não fizesse nenhum outro mal, sua característica divisora, perversa e cuidadosamente cultivada – sua apropriação deliberada da tendência natural da humanidade, de favorecer os integrantes de seu próprio grupo e rejeitar os forasteiros – já seria suficiente para fazer dela uma força maligna significativa para o mundo.

AQUI TERMINA A TRANSCRIÇÃO.
As partes em que coloquei reticências (...) certamente causariam tanto furor em fundamentalistas que preferi não colocá-las (SIM, mais furor do que as que já coloquei)... a ideia geral ficou demonstrada e quem se interessar, leia o livro que, aliás, é empolgante! (mesmo pra quem não concorda com tudo que ele fala e da forma como fala)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Ainda sobre o Bóson...

Tive a oportunidade de ler um texto sobre o bóson de Higgs escrito por um filósofo religioso famoso... (devo o crédito à minha prima Elisa…rs)
O texto pode ser lido em:

Tenho minhas observações...

Ele diz que as descobertas do Colisor “vão confirmar as provas que já temos para o início do Universo”...”nós” a ciência ou “nós” os criacionistas?? Não vejo como a comprovação de que o universo evolui e não surgiu do NADA seria conivente com qualquer teoria religiosa...
A denominação “particula de Deus” não surgiu como ele diz, porque: “assim como Deus, está em toda parte, mas é misteriosamente escondida” (mais uma forma recorrente, de tentar distorcer o que é dito pela ciência), a denominação surgiu porque o bóson explicaria a CRIAÇÃO do universo, NO LUGAR DE DEUS...
Ele continua... “não vejo nada que traga esperança aos ateus... Em 2003 Arvind Borde, Alexander Vilenkin, e Alan Guth foram capazes de demonstrar um teorema que provou que qualquer universo que tem sido, em média, globalmente expandindo a uma taxa positiva tem um limite passado e, portanto, não pode ser infinito no passado.”
E daí??? A ciência não diz que o universo é infinito para o passado, mas que o começo teria se originado de forma diferente do estalar de dedos de um ser superior... aqui entra a velha prática de defender suas ideias da seguinte forma: “se vc não conseguiu comprovar sua tese ainda, só pode significar a validade da minha, mesmo que eu não tenha prova alguma dela!”
Ele diz ainda que: “Teóricos com a intenção de evitar o início absoluto do universo anteriormente podiam sempre refugiar-se no período anterior ao tempo de Planck, uma era tão mal entendida que foi comparada com as regiões nos mapas de antigos cartógrafos marcadas com "Aqui pode ser que haja dragões! "-que pode ser preenchido com todos os tipos de fantasias.”
Aí ele tem razão, embora a fantasia possa ser dele também, que ao invés de imaginar modelos físicos para a criação do tempo e espaço, imagina uma mão divina... tudo fantasia, até que se prove o contrário.

Ele continua... “Além disso, estas teorias de multiversos todas têm um início no passado finito implicando que o mecanismo que gera novos universos trabalha a apenas uma quantidade finita de tempo, que pode muito bem ser insuficiente para garantir por acaso a aparência de um universo como o nosso.”
Essa declaração só pode significar que ele não entendeu a teoria dos multiversos... por essa teoria, evidentemente, nosso universo surgiria a partir de um tempo finito (momento mensurável), uma vez que seria um universo-filho de outro universo que o criou. Isso não significa que não possa existir de acordo com a teoria do multiverso... Richard Dawkins é claro sobre o tema: “A diferença principal da hipótese da existência de Deus genuinamente extravagante e a hipótese aparentemente extravagante do multiverso é de improbabilidade estatistica. O multiverso, com toda a sua extravagância, é simples. Deus, ou qualquer agente inteligente, capaz de tomar decisões e de fazer cálculos, teria de ser altamente improvável, no mesmíssimo sentido estatístico das entidades que se supõe que ele explique. O multiverso pode parecer extravagante no mero número de universos. Mas, se cada um desses universos for simples em suas leis fundamentais, não estamos postulando nada de muito improvável. É preciso dizer exatamente o contrário sobre qualquer tipo de inteligência.”

Não que interesse, mas não concordo com Dawkins quando afirma a inexistência do sobrenatural, mas concordo com a inexistência do Deus religioso 3oni (onipresente, onisciente e onipotente – ideia totalmente irracional) e consequentemente, do criacionismo.
A questão, na minha opinião, se resume a uma só pergunta: Se apenas o argumento do início finito (mensurável no tempo) do universo é usado pra “justificar” a criação divina, por que Deus se deu ao trabalho de criá-lo tão cru, para que então evoluísse até o aparecimento do homem, ao invés de simplesmente fazer tudo surgir pronto e acabado, com sua onipotência?
Aliás, na minha época de igreja, O UNIVERSO, incluindo o homem, foi criado em 6 dias... acho que ainda tem gente que acredita nisso, mas mesmo aqueles que se renderam à ciência e acreditam na criação do universo MUITO TEMPO antes dos 6 dias, não podem negar as provas científicas da evolução das espécies e do cosmos, então resta a pergunta... por que se dar ao trabalho de criar algo tão cru e esperar que  ele evoluísse gradativamente?
Ah... já sei a resposta... os desígnios de Deus são inalcançáveis...rs  E, mais uma vez, tudo se resolve sem provas de um lado e ignorando-se as provas do outro.

O Bóson de Higgs e as coisas que eu não queria dizer! rs

A evolução da vida na Terra já está cientificamente comprovada. Os criacionistas se apegam a poucas lacunas que, com o passar do tempo e o desenvolvimento da ciência, vão sendo devidamente preenchidas.
Cito somente um exemplo clássico da irredutibilidade complexa (que pra mim, sempre foi o único argumento plausível para o criacionismo, mas ainda assim, com o avanço da ciência, os exemplos vão se acabando), o sistema imunológico.
A aparente irredutibilidade do sistema imunológico é um dos exemplos criacionistas que sobram, pois vive de lacunas na ciência para justificar sua tese (como se as lacunas SÓ pudessem ser substituídas por Deus), até que essas lacunas sejam preenchidas pelo conhecimento, como aconteceu com a aparente irredutibilidade do olho e das asas.
O autor da teoria da irredutibilidade complexa foi colocado para depor sobre o tema, nos Estados Unidos - só lá esses absurdos jurídicos acontecem... RS
Michael Behe ( tenho um livro dele que me convenceu por um tempo... “A Caixa Preta de Darwin”) foi perguntado sobre o sistema imunológico e a sentença do juiz foi assim: “...o professor Behe foi questionado sobre sua alegação, feita em 1996, de que a ciência jamais encontraria uma explicação evolutiva para o sistema imune. Ele foi colocado diante de 58 publicações avaliadas por pares acadêmicos, nove livros e vários capítulos sobre imunologia de livros didáticos a respeito da evolução do sistema imunológico, no entanto ele simplesmente insistiu que isso ainda não era evidência suficiente da evolução... por sorte, existem cientistas que pesquisam em busca de respostas para a pergunta sobre a origem do sistema imunológico...seu empenho nos ajuda a combater e curar condições médicas graves. O professor Behe e todo o movimento do design inteligente, pelo contrário, não estão fazendo nada para obter avanços no conhecimento científico ou médico, e estão dizendo às gerações futuras de cientistas:não liguem para isso.”
Nesse mesmo sentido, choveu de criacionistas dizendo que a construção do acelerador de partículas do CERN era um desperdício de dinheiro, pois nunca acharam o bóson de Higgs e, ao contrário, encontraram evidências de que ele NÃO existia... quero ver como ficam essas falácias, depois da notícia de anteontem.
Como a evolução das espécies fica evidenciada a cada dia, os contra argumentadores começaram a se apegar à origem da vida, que é um pouco mais complicada de comprovar, pois não está escancarada em fósseis que evidenciam as fases evolutivas das espécies.
Faltava o Bóson de Higgs... ele é chamado inadvertidamente de “partícula de Deus”, mas de Deus não tem nada, pelo contrário, substitui sua “mão” na hora de criar a matéria.
Em termos bem leigos, o bóson é o estado imediatamente anterior à matéria. Seria aquele “sobrenatural” ou a “coisa imaterial” de onde surgiu a matéria e, bilhões de anos de evolução depois, a vida.
A lição que tiramos é que quanto mais evoluímos como seres pensantes, mais descobrimos realmente como as coisas funcionam. E deixar de lado a ciência por medo do inferno (afinal, o fim dos tempos é marcado pelo avanço do conhecimento, certo?) é uma opção de preguiçosos (diz Richard Dawkins). É mais fácil acreditar no sobrenatural do que tentar entender física, matemática, química e biologia...
Minha tendência é mais para o agnosticismo que para o ateísmo... não creio e nem descreio na existência de Deus, até que me provem algo concreto... o ateísmo já considera que existem mais provas para a não existência que para a existência. Eu prefiro acreditar na existência de uma vida depois da morte e, portanto, em uma existência sobrenatural que, em última análise, permitiria a existência de seres sobrenaturais ainda mais superiores em escala evolutiva (Darwinismo aplicado a Deus rsrs). Influência de minha criação, como diria Dawkins...rs
Enfim, não descreio no sobrenatural como Dawkins (a quem respeito muito pela inteligência), mas não creio na religião (espero que reconheçam minha afirmação corajosa, num mundo dominado por religiosos e onde muitos cientistas não têm a coragem de assumir isso rsrs)
Já que estou no assunto (que prometo não alongar, afinal, não é o intuito desse blog), prefiro falar tudo de uma vez, afinal, falar pela metade seria covardia... (incrivel como precisa ter coragem pra confrontar ideias majoritárias, ainda que irracionais).
Conforme Richard Dawkins em “Deus – um delírio” (recomendadíssimo!!!), a sociedade não precisa de religião para ser boa, pois fazer o bem com medo de ser punido, não é genuinamente fazer o bem.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A beleza da imperfeição!

“No primeiro livro do Antigo Testamento, Gênese, Deus, eterno e onipotente, manipula o “nada” com o verbo e dá origem à luz. Para os judeus, cristãos e muçulmanos, Ele é a Primeira Causa. Tudo vem de Deus, enquanto Deus, onipresente, não vem de lugar algum. Como Deus é perfeito, Sua criação também deve ser perfeita. E assim foi, até que Adão e Eva comeram a famosa maçã da Árvore da Sabedoria. A lição é simples: o desejo e a curiosidade nos expulsaram do Paraíso, e deixamos de ser como deuses. Desde então, como meros mortais, tentamos de todos os modos nos reconectar com o que perdemos, ascender à perfeição divina. Essa busca, mesmo que nobre, já nos iludiu por tempo demais. Precisamos de um novo começo, de uma nova busca.

...da origem da matéria à origem da vida, do átomo à célula, o surgimento de estruturas materiais complexas depende fundamentalmente da existência de assimetrias.
Aos poucos, fui convergindo numa nova estética, baseada na imperfeição.
Que me perdoe o grande Vinicius de Moraes, mas beleza não é fundamental. É o imperfeito, e não o perfeito, que deve ser celebrado.
Como no famoso sinal de Marilyn Monroe, a assimetria é bela precisamente por ser imperfeita.

...Esse foco numa perfeição divina precisa mudar. Precisamos abraçar os ensinamentos de uma nova visão científica do mundo, onde o poder criativo da Natureza reside nas suas imperfeições, e não na sua perfeição; onde a vida, e mesmo a nossa existência, é frágil e preciosa.
Dentro dessa nova visão, nosso conhecimento do mundo será sempre limitado. Não existe uma Teoria Final, apenas uma descrição cada vez mais precisa da realidade em que vivemos.”

(Do novo livro de Marcelo Gleiser – “A Criação Imperfeita”)

E viva essa ADORÁVEL IMPERFEIÇÃO!!!! ;)